Saiu uma entrevista hipotética de Lula na
Zero Hora, com respostas
tiradas de artigos publicados por ele no jornal, entre 5 de
setembro
de 1999 e 31 de março de 2002. As perguntas foram feitas para se
adaptarem
às declarações públicas que ele
havia feito em tempos passados.
O jornal não enganou ninguém e o
resultado é esclarecedor.
ZH - Um presidente da República pode não saber do que ocorre nos
gabinetes do Palácio do Planalto, principalmente em relação a
acusações contra seus subordinados mais próximos?
Lula: "Não é possível que o presidente não
soubesse de nada, que ele
não tivesse idéia do que o seu homem de confiança fazia na sala
ao
lado da sua no Palácio do Planalto. Afinal, um presidente da
República não pode ser tão desinformado. Aliás, o presidente
deveria
ter se dirigido à opinião pública para, no mínimo, prestar
esclarecimentos sobre esses escândalos." (Em 30/07/2000,
referindo-se
ao presidente Fernando Henrique Cardoso e ao escândalo da
violação do
painel do Senado.)
ZH -Por que as denúncias contra o PT apareceram agora?
Lula: No Brasil, a opinião pública só fica
sabendo das falcatruas que
ocorrem em determinados governos quando há brigas envolvendo o
centro
do poder. Somente a partir desse tipo de denúncias é que as
oposições, a imprensa e a própria sociedade têm meios de aferir
a
gravidade desses casos de corrupção. (Em 4/03/2001.)
ZH -A investigação das denúncias por órgãos ligados ao Executivo
é
suficiente?
Lula: Como é que alguém subordinado ao
presidente (referindo-se à
criação da Corregedoria-Geral da União) vai investigar as
mazelas que
a imprensa diz que são de responsabilidade do próprio governo?
(Em
8/04/2001.)
ZH -No início da crise, no lugar de admitir os erros, o Planalto
se
concentrou em buscar bodes expiatórios na oposição. A demora não
inflou a crise?
Lula: O presidente da República faria muito
melhor se deixasse de
lado a busca de bodes expiatórios e o costume de insultar as
forças
de oposição e passasse a estudar propostas (...) voltadas para a
busca de solução real para as dificuldades crescentes que cercam
nosso país. Busca que,evidentemente, exige mudanças radicais no
modelo econômico de recessão e juros extorsivos que é hoje
imposto
aos brasileiros. (Em 19/09/1999,referindo-se a Fernando
Henrique.)
ZH -Parte da defesa do PT está baseada no argumento de que a
corrupção
não foi inventada pelo atual governo. A estratégia de envolver o
PSDB
tem fundamento?
Lula: Aqui no Brasil, essas evidências de que
as políticas
neoliberais carregam um padrão de corrupção eleitoral não são
novidade. O presidente FH empurrou para baixo do tapete todas as
denúncias de compra de votos pelo seu governo para aprovação da
reeleição. A cada novo escândalo denunciado,realiza uma nova
operação
abafa. Mesmo quando o seu braço direito foi denunciado. (Em
24/09/2000, referindo-se a Eduardo Jorge.)
ZH -O PT está sabendo lidar com a postura da oposição diante da
crise?
Lula: Forjado em uma longa trajetória de
atuação oposicionista, o PT
compreende mais do que ninguém a importância fundamental da
cobrança,
da fiscalização e da crítica exercida pela oposição em qualquer
nível
de governo. Sem isso, não existe vida democrática. (Em
4/11/2001.)
ZH -Mas o partido foi acusado de tentar barrar as investigações,
lutando
contra a criação de CPIs.
Lula: O PT, todos sabem, tem lutado de modo
firme contra a corrupção,
em qualquer nível, e pela absoluta e imparcial apuração dos
fatos.
Tem defendido a instalação de CPIs todas as vezes em que as
denúncias
de desmandos justificam tal medida. É por temer o futuro que se
avizinha que os políticos conservadores vão tentar fazer de tudo
para
lançar o PT na vala comum da corrupção brasileira. Mas nós temos
o
antídoto. O PT apura e pune. E os outros? (Em 11/11/2001.)
ZH -Não se corre o risco de a sucessão de denúncias banalizar a
corrupção e alimentar um clima de que todos os políticos são
iguais?
Lula: O corrupto, além de roubar dinheiro
público que deveria estar
sendo utilizado em obras e serviços para melhorar a vida da
grande
maioria do povo brasileiro, destina parte do arrecadado para
fazer
corrupção eleitoral. A sociedade não pode encarar mais esse
escândalo
como coisa banal,corriqueira, pensando que "isso não tem jeito e
sempre foi assim". Tem jeito, sim. Há políticos sérios e
comprometidos com a ética e com o bem público. O PT não faz
milagres
nem é formado por santos. (Em 16/07/2000.)
ZH -A população só se desilude ou consegue aprender algo com a
crise?
Lula: Felizmente, o povo brasileiro está
ganhando consciência cada
vez maior de que é necessário combater radicalmente a corrupção
no
país. O impeachment de Collor foi uma vitória histórica e
educativa.
O fortalecimento da democracia faz crescer a exigência de maior
transparência e participação do povo na coisa pública. Quanto
mais eu
vejo denúncias sérias de corrupção,mais eu me orgulho do papel
que o
Partido dos Trabalhadores tem desempenhado nessa luta. (Em
19/03/2000.)
ZH -Que malefícios a avalancha de denúncias traz à população?
Lula: Muita gente, ao ver tudo isso sendo
revelado pela imprensa,
fica decepcionada com o Congresso e com a política de modo
geral. É
exatamente isso o que os muitos conservadores e corruptos querem
que
o povo pense: que todos os políticos e todos os partidos são
iguais.
Mas isso não é verdade. (Em 29/04/2001.)
ZH -O que o Brasil perde quando um governo como o do PT, que
sempre
defendeu uma nova relação entre o público e o privado, comete
deslizes éticos?
Lula: O povo até compreende quando um governo
deixa de fazer certas
obras ou comete alguns erros, porque errar é humano. Mas a
situação
no Brasil já passou dos limites. Ninguém pode aceitar a
continuidade
dessa relação promíscua entre a coisa pública e os interesses
privados, com o Estado sendo usado para beneficiar uma minoria
de
privilegiados da sociedade. (Em20/08/2000.)
ZH -Com a crise, o PT deixa de ser um modelo de moralidade?
Lula: Nós, do PT, temos políticas concretas de
combate à corrupção.
Em praticamente todos os municípios e Estados em que o nosso
partido
chega ao governo a arrecadação aumenta e os cofres públicos
passam a
ter recursos suficientes para investimentos sociais. E isso
acontece
não apenas porque termina a roubalheira, o clientelismo, o
leilão de
cargos e postos de direção. É porque o partido tem uma postura
ética
sólida e um programa de modernização administrativa. (Em
22/12/2000.)
ZH -O PT não traiu as esperanças do eleitor que desejava
mudanças?
Lula: À esquerda e a todas as forças
democrático-populares do Brasil
não lhes é dado o direito de vencer as eleições, chegar ao poder
e
frustrar as esperanças do nosso povo. Partidos e políticos têm
se
sucedido nos governos,fazendo promessas e enganando a grande
maioria
da população. Isso pode e deve mudar. (Em 16/12/2001.)
ZH - O PT teve de abrir mão de suas origens e compromissos para
chegar
ao Planalto?
Lula: É por isso que estão inventando essa
história de PT cor-de-
rosa, PTlight e outras bobagens. Querem fazer crer que a razão
principal da nossa vitória se deveria a uma postura "nova" do
PT, que
estaria abandonando os seus princípios, os seus objetivos, a sua
firmeza - e por isso estaria sendo aceito por grande parte do
eleitorado. (Em 3/11/2000.)
ZH - O projeto de reeleição do PT fez o partido admitir o
comportamento
de que poderia valer tudo para permanecer no poder?
Lula: A despeito do que pregaram os formadores
de opinião "chapas
brancas",está claro que no Brasil atual a reeleição não combina
com
aspirações republicanas. O fim da reeleição trará de volta à
política
fatores preciosos: disputas democráticas e mais equânimes,
favorecendo a renovação e o aparecimento de novas lideranças.
(Em
3/12/2000.)
ZH -Onde estaria a solução?
Lula: A reforma política é o caminho para a
superação dessas mazelas
e de outras, igualmente vexatórias, como as recentes denúncias
de
caixa 2 nas campanhas presidenciais. (Em 3/12/2000, referindo-se
à
campanha de FernandoHenrique.)
ZH -Só a reforma política resolve?
Lula: Hoje, o problema atingiu um patamar tão
grave que nós teremos
de fazer um verdadeiro mutirão para enfrentá-lo. Um mutirão que
envolva a conscientização da sociedade - os eleitores devem
exigir
cada vez mais as credenciais éticas de seus candidatos - e que
mobilize muita competência investigativa, orientada para o alvo
certo: a lavagem de dinheiro, os laços financeiros
internacionais, as
máscaras legais, o atacado do tráfico de armas e drogas, a
infiltração nas instituições públicas dos operadores políticos
dessa
rede criminosa. (Em 2/09/2001.)
ZH -Que experiências municipais do PT poderiam ser aproveitadas
por um
governo federal do PT como forma de diminuir o espaço para
corrupção?
Lula: Onde o Partido dos Trabalhadores governa,
nós temos implantado
o Orçamento Participativo. O povo se reúne e decide como aplicar
o
dinheiro público. E exerce um controle cada vez maior sobre o
governo. Esse é, sem dúvida, um caminho promissor para combater
radicalmente a corrupção que está degradando o nosso país. Um
caminho
eficaz para tapar os buracos onde está vazando o dinheiro
público.
(Em 20/08/2000.)