Enfim, tudo o que acima está versado e muito mais, você
pode encontrar no “Os Protocolos dos Sábios do Sião”. Um livro, cujo conteúdo é
fortemente rejeitado e desmentido por muitos judeus que alegam ser o texto
oriundo de novelista e usado pela polícia secreta russa. Entretanto, Analisados por um
judeu, Semita, Jacob Coehn, “os Protocolos dos Sabios
do Sião by Jacob Cohen Wednesday March 10, 2004 at 01:18
AM jacob.cohen@bol.com.br
Professores, Grigori Efemovich
& Jacob Coehn” está tudo confirmado, sob alegação de que concluiu ou
concluíram tratar-se de panfleto endereçado pelo povo judeu a mandatário de
algum país, possivelmente, da Tailândia. Entretanto, o “emissário” que transportava
o tal panfleto deve ter sofrido um assalto e assim foi que seu conteúdo, hoje
livro, foi parar “em mãos erradas”. E
para enriquecer sua tese, o historiador divulga em seu site, os “Estatutos
Poloneses” vigentes desde o século XIII até o século XIX e que se alastraram
pelas regiões vizinhas.
Diz o historiador Jacob Cohen:
“ - Esses Estatutos assinados no século 13
pelo Príncipe Boleslau "o Piedoso", de Kalisz só extinguiram-se no século
19 e durante meio milênio, na exata forma maquiavélica como aqui apresentados,
alastraram-se em grau de influencia, aos países vizinhos entorno ao eixo da Grã
Polônia, dominando a Alemanha, a Áustria, a Hungria , a Servia, a Boêmia etc,
até os dias que antecederam as duas guerras mundiais, para os judeus e ciganos
desses paises graças ao estatuto numero 12.
( ESTATUTO -12
- 12 Se um judeu passar por qualquer lugar do nosso país não deverá ser detido
por pessoa alguma , nem importunado e nem estorvado.
a- Se
ele transportar mercadorias devera pagar taxas em todo o lugar onde houver
aduana, mas de maneira que judeu não pague taxa alguma que não caiba também ao
cidadão do burgo no qual o judeu estiver naquela hora. - )
Não
havia fronteiras e foi fácil para a Hitler entender que judeus e ciganos eram
espiões em potencial que tinham pleno conhecimento das fronteiras e que tanto podiam espionar para eles quanto para Ingleses e USA conforme
confirmou-se mais tarde.
http://geocities.yahoo.com.br/boleslauopiedoso/holocausto.html
”
No livro “Os Protocolos dos Sábios de (ou, do) Sião”,
existem muitas passagens que levam ao livro “O Príncipe”. Uma delas, a máxima:
“O objetivo final justifica os meios”, princípio usado por Maquiavel... “Os
fins justificam os meios”.
Ao menos, se pode afirmar que os efeitos do que está
previsto no Livro “Os Protocolos dos Sábios do Sião” são altamente sensíveis e
basta lê-lo para que se possa constatar verdadeira esta assertiva. Tudo está
realmente acontecendo com o povo. Coincidências? Mistérios...
De todo o exposto se pode concluir que, mesmo sem ter
sido criado e preparado para ser mandatário de um país ou planeta, posso me dar
o direito de supor que, se um dia o Governo do Planeta Terra cair em mãos dos
detentores do ouro, do poder econômico e da imprensa, através de um governo
ÚNICO, e se concretizar a existência do Kahal (o Reinado
do Planeta Terra – a “Terra Prometida”), de forma nenhuma eu poderei me sentir
surpreso.
Quanto aos comparativos e correlações entre os dois
livros citados, pode-se ainda vislumbrar um bom exercício cujo objetivo é
apenas provocar constante evolução na busca da cultura.
São Vicente, 10 de novembro de 2004.
Cdor Heraldo Lage.
http://www.hlage.com
heraldolage@yahoo.com.br
Costumam, o mais das vezes, aqueles que desejam
conquistar as graças de um Príncipe, trazer-lhe aquelas coisas que consideram
mais caras ou nas quais o vejam encontrar deleite, donde se vê amiúde serem a
ele oferecidos cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e outros
ornamentos semelhantes, dignos de sua grandeza. Desejando eu, portanto,
oferecer-me a Vossa Magnificência com um testemunho qualquer de minha
submissão, não encontrei entre os meus cabedais coisa a mim mais cara ou que
tanto estime, quanto o conhecimento das ações dos grandes homens apreendido
através de uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua lição das
antigas as quais tendo, com grande diligência, longamente perscrutado e
examinado e, agora, reduzido a um pequeno volume, envio a Vossa Magnificência.
E se bem julgue esta obra indigna da presença de
Vossa Magnificência, não menos confio que deva ela ser
aceita, considerado que de minha parte não lhe possa ser feito maior
oferecimento senão o dar-lhe a faculdade de poder, em tempo assaz breve,
compreender tudo aquilo que eu, em tantos anos e com tantos incômodos e
perigos, vim a conhecer. Não ornei este trabalho, nem o enchi de períodos
sonoros ou de palavras pomposas e magníficas, ou de qualquer outra figura de
retórica ou ornamento extrínseco, com os quais muitos costumam desenvolver e
enfeitar suas obras; e isto porque não quero que outra coisa o valorize, a não
ser a variedade da matéria e a gravidade do assunto a tornarem-no agradável.
Nem desejo se considere presunção se um homem de baixa e ínfima condição ousa
discorrer e estabelecer regras a respeito do governo dos príncipes: assim como
aqueles que desenham a paisagem se colocam nas baixadas para considerar a
natureza dos montes e das altitudes e, para observar aquelas, se situam em
posição elevada sobre os montes, também, para bem conhecer o caráter do povo, é
preciso ser príncipe e, para bem entender o do príncipe, é preciso ser do povo.
Receba, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com aquele intuito com
que o mando; nele, se diligentemente considerado e lido, encontrará o meu
extremo desejo de que lhe advenha aquela grandeza que
a fortuna e as outras suas qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência,
das culminâncias em que se encontra, alguma vez volver os olhos para baixo,
notará quão imerecidamente suporto um grande e contínuo infortúnio.
Todos os Estados, todos os governos que tiveram e
têm autoridade sobre os homens, foram e são ou repúblicas ou principados. Os
principados são: ou hereditários, quando seu sangue senhorial é nobre há já
longo tempo, ou novos. Os novos podem ser totalmente novos, como foi Milão com
Francisco Sforza, ou o são como membros acrescidos ao Estado hereditário do
príncipe que os adquire, como é o reino de Nápoles em relação ao rei da
Espanha. Estes domínios assim obtidos estão acostumados, ou a viver submetidos
a um príncipe, ou a ser livres, sendo adquiridos com
tropas de outrem ou com as próprias, bem como pela fortuna ou por virtude.
Não cogitarei aqui das repúblicas porque delas
tratei longamente em outra oportunidade. Voltarei minha atenção somente para os
principados, irei delineando os princípios descritos e discutirei como devem
ser eles governados e mantidos. Digo, pois, que para a preservação dos Estados
hereditários e afeiçoados à linhagem de seu príncipe, as dificuldades são assaz
menores que nos novos, pois é bastante não preterir os costumes dos
antepassados e, depois, contemporizar com os acontecimentos fortuitos, de forma
que, se tal príncipe for dotado de ordinária capacidade sempre se manterá no
poder, a menos que uma extraordinária e excessiva força dele
venha a privá-lo; e, uma vez dele destituído, ainda que temível seja o
usurpador, volta a conquistá-lo.
Nós temos na Itália, como exemplo, o Duque de
Ferrara que não cedeu aos assaltos dos venezianos em 1484 nem aos do Papa Júlio
em 1510, apenas por ser antigo naquele domínio. Na verdade, o príncipe natural
tem menores razões e menos necessidade de ofender: donde se conclui dever ser
mais amado e, se não se faz odiar por desbragados vícios, é lógico e natural
seja benquisto de todos. E na Antigüidade e continuação do exercício do poder,
apagam-se as lembranças e as causas das inovações, porque uma mudança sempre
deixa lançada a base para a ereção de outra.
Mas é nos principados novos que residem as dificuldades. Em primeiro lugar, se não é totalmente novo mas sim como membro anexado a um Estado hereditário (que,
em seu conjunto, pode chamar-se "quase misto"), as suas variações
resultam principalmente de uma natural dificuldade inerente a todos os
principados novos: é que os homens, com satisfação, mudam de senhor pensando
melhorar e esta crença faz com que lancem mão de armas contra o senhor atual,
no que se enganam porque, pela própria experiência, percebem mais tarde ter
piorado a situação. Isso depende de uma outra necessidade natural e ordinária,
a qual faz com que o novo príncipe sempre precise ofender os novos súditos com
seus soldados e com outras infinitas injúrias que se lançam sobre a recente
conquista; dessa forma, tens como inimigos todos aqueles que ofendeste com a
ocupação daquele principado e não podes manter como amigos os que te puseram ali,
por não poderes satisfazê-los pela forma por que tinham imaginado, nem aplicar-lhes corretivos violentos uma vez que estás a eles
obrigado; porque sempre, mesmo que fortíssimo em exércitos, tem-se necessidade
do apoio dos habitantes para penetrar numa província. Foi por essas razões que
Luís XII, rei de França, ocupou Milão rapidamente e logo depois o perdeu, para
tanto bastando inicialmente as forças de Ludovico,
porque aquelas populações que lhe haviam aberto as portas, reconhecendo o erro
de seu pensar anterior e descrentes daquele bem-estar futuro que haviam
imaginado, não mais podiam suportar os dissabores ocasionados pelo novo
príncipe.
Ë bem verdade que, reconquistando posteriormente as
regiões rebeladas, mais dificilmente se as perdem, eis que o senhor, em razão
da rebelião, é menos vacilante em assegurar-se da punição daqueles que lhe
faltaram com a lealdade, em investigar os suspeitos e em reparar os pontos mais
fracos. Assim sendo, se para que a França viesse a perder Milão pela primeira
vez foi suficiente um Duque Ludovico que fizesse motins nos seus limites, já
para perdê-lo pela segunda vez foi preciso que tivesse
contra si o mundo todo e que seus exércitos fossem desbaratados ou expulsos da
Itália, o que resultou das razões logo acima apontadas. Não obstante, tanto na
primeira como na segunda vez, Milão foi-lhe tomado.
As razões gerais da primeira foram expostas; resta
agora falar sobre as da segunda vez e ver de que remédios
dispunha a França e de que meios poderá valer-se quem venha a encontrar-se
em circunstâncias tais, para poder manter-se na posse da conquista melhor do
que o fez esse país.
Digo, conseqüentemente, que estes Estados
conquistados e anexados a um Estado antigo, ou são da mesma província e da
mesma língua, ou não o são: Quando o sejam, é sumamente fácil mantê-los
sujeitos, máxime quando não estejam habituados a viver em liberdade, e para
dominá-los seguramente será bastante ter-se extinguido
a estirpe do príncipe que os governava, porque nas outras coisas,
conservando-se suas velhas condições e não existindo alteração de costumes, os
homens passam a viver tranqüilamente, como se viu ter ocorrido com a Borgonha,
a Bretanha, a Gasconha e a Normandia que por tanto tempo estiveram com a
França, isto a despeito da relativa diversidade de línguas, mas graças à
semelhança de costumes facilmente se acomodaram entre eles. E quem conquista,
querendo conservá-los, deve adotar duas medidas: a primeira, fazer com que a
linhagem do antigo príncipe seja extinta; a outra, aquela de não alterar nem as
suas leis nem os impostos; por tal forma, dentro de mui curto lapso de tempo, o
território conquistado passa a constituir um corpo todo com o principado
antigo.
Mas, quando se conquistam territórios numa
província com língua, costumes e leis diferentes, aqui surgem as dificuldades e é necessário haver muito boa sorte e
habilidade para mantê-los. E um dos maiores e mais eficientes remédios seria
aquele do conquistador ir habitá-los. Isto tornaria mais segura e mais
duradoura a posse adquirida, como ocorreu com o Turco da Grécia, que a despeito
de ter observado todas as leis locais, não teria conservado esse território se
para aí não tivesse se transferido. Isso porque, estando no local, pode-se ver
nascerem as desordens e, rapidamente, podem ser elas reprimidas;
aí não estando, delas somente se tem notícia quando já alastradas e não mais
passíveis de solução. Além disso, a província conquistada não é saqueada pelos lugar-tenentes; os súditos ficam satisfeitos porque o
recurso ao príncipe se torna mais fácil, donde têm mais razões para amá-lo,
querendo ser bons, e para temê-lo, caso queiram agir por forma diversa. Quem do
exterior desejar assaltar aquele Estado, por ele terá maior respeito; donde,
habitando-o, o príncipe somente com muita dificuldade poderá vir a perdê-lo.
Outro remédio eficaz é instalar colônias num ou
dois pontos, que sejam como grilhões postos àquele Estado, eis que é necessário
ou fazer tal ou aí manter muita tropa. Com as colônias não se despende muito e,
sem grande custo, podem ser instaladas e mantidas, sendo que sua criação
prejudica somente àqueles de quem se tomam os campos e as casas para cedê-los
aos novos habitantes, os quais constituem uma parcela mínima do Estado
conquistado. Ainda, os assim prejudicados, ficando dispersos e pobres, não
podem causar dano algum, enquanto que os não lesados ficam à parte,
amedrontados, devendo aquietar-se ao pensamento de que não poderão errar para
que a eles não ocorra o mesmo que aconteceu àqueles que foram espoliados.
Concluo dizendo que estas colônias não são onerosas, são mais fiéis, ofendem
menos e os prejudicados não podem causar mal, tornados pobres e dispersos como
já foi dito. Por onde se depreende que os homens devem ser acarinhados ou
eliminados, pois se se vingam das pequenas ofensas, das graves não podem
fazê-lo; daí decorre que a ofensa que se faz ao homem deve ser tal que não se
possa temer vingança. Mas mantendo, em lugar de colônias, forças militares, gasta-se muito mais, absorvida toda a arrecadação daquele
Estado na guarda aí destacada; dessa forma, a conquista transforma-se em perda
e ofende muito mais por que danifica todo aquele país com as mudanças do
alojamento do exército, incômodo esse que todos sentem e que transforma cada
habitante em inimigo: e são inimigos que podem causar dano ao conquistador,
pois, vencidos, ficam em sua própria casa. Sob qualquer ponto de vista essa
guarda armada é inútil, ao passo que a criação de colônias é útil.
Deve, ainda, quem se encontre à frente de uma
província diferente, como foi dito, tornar-se chefe e defensor dos menos
fortes, tratando de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hipótese alguma
aí penetre um forasteiro tão forte quanto ele. E sempre surgirá quem seja
chamado por aqueles que na província se sintam descontentes, seja por excessiva
ambição, seja por medo, como viu-se terem os etólios
introduzido na Grécia os romanos que, aliás, em todas as outras províncias que
conquistaram, fizeram-no auxiliados pelos respectivos habitantes. E a ordem das
coisas é que, tão logo um estrangeiro poderoso penetre numa província, todos
aqueles que nela são mais fracos a ele dêem adesão, movidos pela inveja contra
quem se tornou poderoso sobre eles; tanto assim é que em relação a estes não se
torna necessário grande trabalho para obter seu apoio, pois logo todos eles,
voluntariamente, formam bloco com o seu Estado conquistado. Apenas deve haver o
cuidado de não permitir adquiram eles muito poder e muita autoridade, podendo o
conquistador, facilmente, com suas forças e com o apoio dos mesmos, abater
aqueles que ainda estejam fortes, para tornar-se senhor absoluto daquela
província. E quem não encaminhar satisfatoriamente esta parte, cedo perderá a
sua conquista e, enquanto puder conservá-la, terá infinitos aborrecimentos e
dificuldades.
Os romanos, nas províncias de que se assenhorearam,
observaram bem estes pontos: fundaram colônias, conquistaram a amizade dos
menos prestigiosos, sem lhes aumentar o poder, abateram os mais fortes e não
deixaram que os estrangeiros poderosos adquirissem conceito. Quero tomar como
exemplo apenas a província da Grécia. Os aqueus e os etólios tornaram-se amigos
dos romanos; foi abatido o reino dos macedônios e daí foi expulso Antíoco; mas
nem os méritos dos aqueus e dos etólios lhes asseguraram permissão para
conquistar algum Estado, nem a persuasão de Felipe logrou fazer com que os
romanos se tornassem seus amigos e não o diminuíssem, nem o poder de Antíoco
conseguiu fazer com que os mesmos o autorizassem a manter seu domínio naquela
província. Isso tudo ocorreu porque os romanos fizeram nesses casos aquilo que
todo príncipe inteligente deve fazer: não somente vigiar e ter cuidado com as
desordens presentes, como também com as futuras, evitando-as com toda a cautela
porque, previstas a tempo, facilmente se lhes pode opor corretivo; mas,
esperando que se avizinhem, o remédio não chega a tempo, e o mal já então se
tornou incurável. Ocorre aqui como no caso do tuberculoso, segundo os médicos:
no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico,
mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade não foi conhecida nem tratada,
torna-se fácil o diagnóstico e difícil a cura. Assim também ocorre nos assuntos
do Estado porque, conhecendo com antecedência os males que o atingem (o que não
é dado senão a um homem prudente), a cura é rápida; mas quando, por não se os
ter conhecido logo, vêm eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de
todos, não mais existe remédio.
Contudo, os romanos, prevendo as perturbações,
sempre as tolheram e jamais, para fugir à guerra, permitiram que as mesmas
seguissem seu curso, pois sabiam que a guerra não se evita
mas apenas se adia em benefício dos outros; por isso mesmo, promoveram a
guerra contra Felipe e Antíoco na Grécia, para evitar terem de fazê-la na
Itália e, no entanto, podiam ter evitado a luta naquele momento, se o quisessem.
Nem em momento algum lhes agradou aquilo que todos os dias está nos lábios dos
entendidos de nosso tempo, o desejo de gozar do benefício da contemporização,
mas sim apenas aquilo que resultava de sua própria virtude e prudência: na
verdade o tempo lança à frente todas as coisas e pode transformar o bem em mal
e o mal em bem.
Mas voltemos à França e examinemos se ela fez
alguma das coisas que expomos, falando eu de Luís e não de Carlos porque foi
daquele que, por ter mantido mais prolongado domínio na Itália, melhor se viram
os progressos: e vereis como ele fez o contrário que se deve fazer para
conservar um Estado numa província diferente.
O Rei Luís foi conduzido à Itália pela ambição dos
venezianos que, por tal meio, quiseram ganhar o Estado da Lombardia, Não desejo
censurar o partido tomado pelo rei; porque, querendo começar a pôr um pé na
Itália e não tendo amigos nesta província, sendo-lhe, ao contrário, fechadas todas as portas em razão do comportamento do Rei Carlos, foi
obrigado a servir-se daquelas amizades com que podia contar: e
ter-lhe-ia resultado bem escolhido esse partido, se nos outros manejos não
tivesse cometido erro algum. Conquistada, pois, a Lombardia, o rei readquiriu
prontamente aquela reputação que Carlos perdera: Gênova cedeu; os florentinos
tornaram-se seus amigos; o marquês de Mantua, o duque de Ferrara, Bentivoglio,
a senhora de Forli, o senhor de Faenza, de Pesaro, de Rimini, de Camerino, de
Piombino, os Luqueses, os Pisanos e os Sieneses, todos foram ao seu encontro
para tornarem-se seus amigos. Os venezianos puderam considerar então a
temeridade da resolução que haviam adotado, pois que, para conquistar dois
tratos de terra na Lombardia, fizeram o rei tornar-se senhor de dois terços da
Itália.
Considere-se agora com quanta facilidade podia o
rei manter a sua reputação na Itália se, observadas as normas já referidas,
tivesse conservado seguros e defendidos todos aqueles seus amigos que, por
serem em grande número, fracos e medrosos uns em relação à Igreja os outros
face aos venezianos, precisavam sempre estar com ele; por meio deles poderia,
facilmente, ter-se assegurado contra os que ainda se conservavam fortes.
Mas ele, apenas chegado a Milão, fez o contrário,
dando auxilio ao papa Alexandre para que ocupasse a Romanha. Nem percebeu que
com essa deliberação enfraquecia a si próprio, afastando os amigos e aqueles
que se lhe tinham lançado aos braços, enquanto engrandecia a Igreja
acrescentando ao poder espiritual, que lhe dá tanta autoridade, tamanha força
temporal. Cometido um primeiro erro, foi compelido a seguir praticando outros
até que, para pôr fim à ambição de Alexandre e evitar que este se tornasse
senhor da Toscana, teve de vir pessoalmente à Itália. Não lhe bastou ter
tornado grande a Igreja e perder os amigos; por querer o reino de Nápoles,
dividiu-o com o rei da Espanha; sendo primeiro o árbitro da Itália, aí colocou
um companheiro para que os ambiciosos daquela província e os descontentes com
ele mesmo tivessem onde recorrer e, em vez de deixar naquele reino um soberano
a ele sujeito, tirou-o para, em seu lugar, colocar um outro que pudesse
expulsá-lo dali.
É coisa muito natural e comum o desejo de
conquistar e, sempre, quando os homens podem fazê-lo, serão louvados ou, pelo
menos, não serão censurados; mas quando não têm possibilidade e querem fazê-lo
de qualquer maneira, aqui está o erro e, conseqüentemente, a censura. Se a
França, pois, podia assaltar Nápoles com suas forças, devia fazê-lo; se não
podia, não devia dividir esse reino. E se a divisão que fez com os venezianas sobre a Lombardia mereceu desculpa por ter com
ela firmado pé na Itália, aquela merece censura em razão de não ser justificada
por essa necessidade.
Tinha, pois, Luís, cometido estes cinco erros:
eliminou os menos fortes; aumentou na Itália o prestígio de um poderoso; aí
colocou um estrangeiro poderosíssimo; não veio habitar no país; não instalou colônias.
Estes erros, contudo, poderiam não ter causado dano
enquanto vivo ele fosse, se não houvesse sido cometido o sexto erro, tomar os
territórios aos venezianos. Na verdade, se não tivesse tornado grande a Igreja
nem introduzido a Espanha na Itália, seria bem razoável e necessário
enfraquecê-los; mas, tomados que foram aqueles partidos, nunca deveriam
consentir na ruína dos mesmos, pois, sendo poderosos, teriam sempre mantido
aquelas à distância da Lombardia, e isso porque os venezianos jamais iriam
consentir em qualquer manobra contra esse Estado, a menos que eles se tornassem
os senhores, da mesma forma que os outros não iriam querer tomá-lo à França
para dá-lo aos venezianos, ao mesmo tempo que lhes
faltava coragem para entrar em luta com estes e com a França. E se alguém
dissesse: o Rei Luís cedeu a Romanha a Alexandre e o Reino à
Espanha para fugir a uma guerra - respondo com as razões já
anteriormente expostas de que - nunca se deve deixar prosseguir uma crise para
escapar a uma guerra, mesmo porque dela não se foge mas apenas se adia para
desvantagem própria. E se alguns outros alegassem a palavra que o rei havia dado
ao Papa, qual a de realizar para ele aquela conquista em troca da dissolução de
seu casamento e do chapéu cardinalício para o arcebispo de Ruão - respondo com
o que mais adiante se dirá acerca da palavra dos príncipes e de como se a deve
respeitar.
Perdeu, pois, o Rei Luís a Lombardia por não ter
respeitado nenhum dos princípios observados por outros que dominaram províncias
e quiseram conservá-las. Não há aqui milagre algum, mas é sim muito comum e
razoável. E deste assunto falei em Nantes ao arcebispo de Ruão, quando
Valentino, assim popularmente chamado César Bórgia, filho do Papa Alexandre,
ocupava a Romanha: porque, dizendo-me o cardeal de Ruão que os italianos não
entendiam de guerra, retruquei-lhe que os franceses não entendiam do Estado,
pois que, se de tal compreendessem, não teriam deixado que a Igreja alcançasse
tanta grandeza. E por experiência viu-se que a grandeza da Igreja e da Espanha
na Itália foi causada pela França, e a ruína desta foi acarretada por aquelas.
Disso se extrai uma regra geral que nunca ou
raramente falha: quem é causa do poderio de alguém arruína-se,
por que esse poder resulta ou da astúcia ou da força e ambas são suspeitas para
aquele que se tornou poderoso.
Consideradas as dificuldades que devem ser
enfrentadas para a conservação de um Estado recém-conquistado, alguém poderia
ficar pasmo ante o fato de que, tendo se tornado senhor da Ásia em poucos anos,
não apenas havia terminado sua ocupação Alexandre Magno veio a morrer e, a
despeito de parecer razoável que todo aquele Estado devesse rebelar-se, seus
sucessores o conservaram e para tanto não encontraram outra dificuldade senão
aquela que, por ambição pessoal, nasceu entre eles mesmos. - Argumento: os
principados de que se conserva memória, têm sido governados de duas formas diversas:
ou por um príncipe, sendo todos os demais servos que, como ministros por graça
e concessão sua, ajudam a governar o Estado, ou por um príncipe e por barões,
os quais, não por graça do senhor mas por Antigüidade
de sangue, têm aquele grau de ministros. Estes barões têm Estados e súditos
próprios que os reconhecem por senhores e a eles dedicam natural afeição. Os
Estados que são governados por um príncipe e servos, têm aquele com maior
autoridade, porque em toda a sua província não existe alguém reconhecido como
chefe senão ele, e se os súditos obedecem a algum outro, fazem-no em razão de
sua posição de ministro e oficial, não lhe dedicando o menor amor.
Os exemplos dessas duas espécies de governo são,
nos nossos tempos, o Turco e o rei de França. Toda a monarquia do Turco é
dirigida por um senhor: os outros são seus servos; dividindo o seu reino em
sandjaks, para aí manda diversos administradores e os muda e varia de acordo
com sua própria vontade. Mas o rei de França está em meio a uma multidão de
antigos senhores que, nessa qualidade, são reconhecidos pelos seus súditos e
por eles amados: têm as suas preeminências e não pode o rei privá-los das
mesmas sem perigo para si próprio. Quem tiver em mira, pois, um e outro desses
governos, encontrará dificuldades para conquistar o Estado Turco, mas, vencido
que seja este, encontrará grande facilidade para conservá-lo, Ao contrário,
encontrar-se-á em todos os sentidos maior facilidade para ocupar o Estado de
França, mas grande dificuldade para mantê-lo.
As razões da dificuldade em ocupar o reino do Turco
decorrem de não poder o atacante ser chamado por príncipes daquele reino, nem
esperar, com a rebelião dos que rodeiam o soberano, poder ter
facilitada a sua empresa: é o que resulta das razões referidas. Porque,
sendo todos escravos e obrigados, são mais dificilmente corruptíveis e, quando
fossem subornados, pouco de útil poder-se-ia esperar, visto não serem eles
capazes de arrastar o povo atrás de si, pelos motivos já mencionados. Logo, se
alguém assaltar o Estado Turco, deve pensar que irá encontrá-lo todo unido, convindo contar mais com suas próprias forças
que com as desordens dos outros. Mas, vencido que seja e uma vez desbaratado em
batalha campal de modo que não possa refazer os exércitos, não se deve recear
outra coisa senão a dinastia do príncipe; uma vez extinta esta, ninguém mais
resta que deva ser temido, já que os demais não gozam de prestígio junto ao
povo; e como o vencedor deste nada podia esperar antes da vitória, depois dela
não deve receá-lo.
O contrário ocorre nos reinos como o de França, por
que com facilidade podes invadi-lo em obtendo o apoio de algum barão do reino,
pois que sempre se encontram descontentes e os que desejam fazer inovações.
Estes, pelas razões referidas, podem abrir o acesso àquele Estado e facilitar a
vitória. Esta, depois, se desejares manter-te, arrasta atrás de si infinitas
dificuldades, seja com aqueles que te ajudaram, seja com os
que oprimiste. Não é bastante extinguir a estirpe do príncipe, pois
permanecem aqueles senhores que se tornam chefes das novas revoluções e, não
podendo nem contentá-los nem exterminá-los, perde aquele Estado tão logo surja
a oportunidade.
Ora, se for considerado de que natureza era o
governo de Dario, se o encontrará semelhante ao reino do Turco. Para Alexandre
foi necessário primeiro encurralá-lo e desbaratá-lo em batalha campal sendo
que, depois da vitória, estando morto Dario, aquele Estado tornou-se seguro
para Alexandre pelas razões acima expostas. Seus sucessores,
se tivessem sido unidos, poderiam tê-lo gozado tranqüilamente, pois ali
não surgiram outros tumultos que não os por eles próprios provocados. Mas
quanto aos Estados organizados como o da França, é impossível possuí-los com
tanta tranqüilidade. Dessa circunstância é que nasceram as freqüentes rebeliões
da Espanha, da França e da Grécia contra os romanos; em decorrência do grande
número de principados que havia naqueles Estados e por todo o tempo em que
perdurou a sua memória, os romanos estiveram inseguros na posse daqueles
domínios. Mas extinta a lembrança dos principados, com o poder e a constância
de sua autoridade, os romanos tornaram-se dominadores seguros. Puderam eles,
também, combatendo mais tarde em lutas internas, arrastar cada facção, para o
seu lado, parte daquelas províncias, segundo a autoridade que havia adquirido
junto a elas; e essas províncias, por não mais existir o sangue de seus antigos
senhores, não reconheciam senão a soberania dos romanos. Consideradas, pois,
todas estas coisas, ninguém se maravilhará da facilidade que Alexandre
encontrou para conservar o Estado da Ásia, e das dificuldades que foram
arrostadas pelos outros para manterem o conquistado, como Pirro e muitos
outros. Isso não resultou da muita ou da pouca virtude do vencedor, mas sim da
diversidade de forma do objeto da conquista.
Quando aqueles Estados que se conquistam, como foi
dito, estão habituados a viver com suas próprias leis e em liberdade, existem
três modos de conservá-los: o primeiro, arruiná-los; o
outro, ir habitá-los pessoalmente; o terceiro, deixá-los viver com suas leis,
arrecadando um tributo e criando em seu interior um governo de poucos, que se
conservam amigos, porque, sendo esse governo criado por aquele príncipe, sabe
que não pode permanecer sem sua amizade e seu poder, e há que fazer tudo por
conservá-los. Querendo preservar uma cidade habituada a viver livre, mais
facilmente que por qualquer outro modo se a conserva por intermédio de seus
cidadãos.
Como exemplos, existem os espartanos e os romanos.
Os espartanos conservaram Atenas e Tebas, nelas criando um governo de poucos;
todavia, perderam-nas. Os romanos, para manterem Cápua, Cartago e Numância,
destruíram-nas e não as perderam; quiseram conservar a Grécia quase como o
fizeram os espartanos, tornando-a livre e deixando-lhe suas próprias leis e não
o conseguiram: em razão disso, para conservá-la, foram obrigados a destruir
muitas cidades daquela província.
É que, em verdade, não existe modo seguro para
conservar tais conquistas, senão a destruição. E quem se torne senhor de uma
cidade acostumada a viver livre e não a destrua, espere ser destruído por ela,
porque a mesma sempre encontra, para apoio de sua rebelião, o nome da liberdade
e o de suas antigas instituições, jamais esquecidas seja pelo decurso do tempo,
seja por benefícios recebidos. Por quanto se faça e se proveja, se não se
dissolvem ou desagregam os habitantes, eles não esquecem aquele nome nem
aquelas instituições, e logo, a cada incidente, a eles recorrem como fez Pisa
cem anos após estar submetida aos florentinos.
Mas quando as cidades ou as províncias estão acostumadas
a viver sob um príncipe, extinta a dinastia, sendo de um lado afeitas a obedecer
e de outro não tendo o príncipe antigo, dificilmente chegam a acordo para
escolha de um outro príncipe, não sabem, enfim, viver em liberdade: dessa
forma, são mais lerdas para tomar das armas e, com maior facilidade, pode um
príncipe vencê-las e delas apoderar-se. Contudo, nas repúblicas há mais vida,
mais ódio, mais desejo de vingança; não deixam nem podem deixar esmaecer a
lembrança da antiga liberdade: assim, o caminho mais seguro é destruí-las ou
habitá-las pessoalmente.
Não se admire alguém se, na exposição que irei
fazer a respeito dos principados completamente novos de príncipe e de Estado,
apontar exemplos de grandes personagens; por que, palmilhando os homens, quase
sempre, as estradas batidas pelos outros, procedendo nas suas ações por
imitações, não sendo possível seguir fielmente as trilhas alheias nem alcançar
a virtude do que se imita, deve um homem prudente seguir sempre pelas sendas
percorridas pelos que se tornaram grandes e imitar aqueles que foram
excelentes, isto para que, não sendo possível chegar à virtude destes, pelo
menos daí venha a auferir algum proveito; deve fazer como os arqueiros hábeis
que, considerando muito distante o ponto que desejam atingir e sabendo até onde
vai a capacidade de seu arco, fazem mira bem mais alto que o local visado, não
para alcançar com sua flecha tanta altura, mas para poder com o auxílio de tão
elevada mira atingir o seu alvo.
Digo, pois, que no principado completamente novo,
onde exista um novo príncipe, encontra-se menor ou maior dificuldade para
mantê-lo, segundo seja mais ou menos virtuoso quem o conquiste. E porque o elevar-se de particular a príncipe pressupõe ou virtude ou
boa sorte, parece que uma ou outra dessas duas razões mitigue em parte muitas
dificuldades; não obstante, tem-se observado, aquele que menos se apoiou na
sorte reteve o poder mais seguramente. Gera ainda facilidade o fato de, por não
possuir outros Estados, ser o príncipe obrigado a vir habitá-lo pessoalmente.
Para reportar-me àqueles que pela sua própria
virtude e não pela sorte se tornarem príncipes, digo que os maiores são Moisés,
Ciro, Rômulo, Teseu e outros tais. Se bem que de Moisés não se deva cogitar por
ter sido ele mero executor daquilo que lhe era ordenado por Deus, contudo deve
ser admirado somente por aquela graça que o tornava digno de conversar com o
Senhor. Mas consideremos Ciro e os outros que conquistaram ou fundaram reinos:
achareis a todos admiráveis. E se forem consideradas suas ações e ordens
particulares, estas parecerão não discrepantes daquelas de Moisés que teve tão
grande preceptor. E, examinando as ações e a vida dos mesmos, não se vê que
eles tivessem algo de sorte senão a ocasião, que lhes forneceu meios para poder
adaptar as coisas da forma que melhor lhes aprouve; e, sem aquela oportunidade,
o seu valor pessoal ter-se-ia apagado e sem essa virtude a ocasião teria
surgido em vão.
Era necessário, pois, a Moisés, encontrar o povo de
Israel no Egito, escravizado e oprimido pelos egípcios, a fim de que aquele,
para libertar-se da escravidão, se dispusesse a segui-lo. Convinha que Rômulo
não pudesse ser mantido em Alba, fosse exposto ao nascer, para que se tornasse
rei de Roma e fundador daquela pátria. Era preciso que Ciro encontrasse
os persas descontentes do império dos medas, e estes estivessem amolecidos e
efeminados pela prolongada paz. Não poderia Teseu demonstrar sua virtude se não
encontrasse os atenienses dispersos. Essas oportunidades por tanto, fizeram
esses homens felizes, e sua excelente capacidade fez com que aquela ocasião
fosse conhecida de cada um: em conseqüência, sua pátria foi nobilitada e
tornou-se felicíssima.
Os que, por suas virtudes, semelhantes às que
aqueles tiveram, tornam-se príncipes, conquistam o principado com dificuldade,
mas com facilidade o conservam; e os obstáculos que se lhes apresentam no
conquistar o principado, em parte nascem das novas disposições e sistemas de
governo que são forçados a introduzir para fundar o seu Estado e estabelecer a
sua segurança. Deve-se considerar não haver coisa mais difícil para cuidar, nem
mais duvidosa a conseguir, nem mais perigosa de manejar, que tornar-se
chefe e introduzir novas ordens. Isso porque o introdutor tem por inimigos
todos aqueles que obtinham vantagens com as velhas instituições e encontra
fracos defensores naqueles que das novas ordens se beneficiam. Esta fraqueza
nasce, parte por medo dos adversários que ainda têm as leis conformes a seus
interesses, parte pela incredulidade dos homens: estes, em verdade, não crêem
nas inovações se não as vêem resultar de uma firme experiência. Donde decorre
que a qualquer momento em que os inimigos tenham oportunidade de atacar, o
fazem com calor de sectários, enquanto os outros defendem fracamente, de forma
que ao lado deles se corre sério perigo.
É necessário, pois, querendo bem expor esta parte,
examinar se esses inovadores se baseiam sobre forças suas próprias ou se dependem
de outros, isto é, se para levar avante sua obra é preciso que roguem, ou se em
realidade podem forçar. No primeiro caso, sempre acabam mal e não realizam
coisa alguma; mas, quando dependem de si mesmos e podem forçar, então é que
raras vezes perigam. Daí resulta que todos os profetas armados venceram e os
desarmados fracassaram. Porque, além dos fatos apontados, a natureza dos povos
é vária, sendo fácil persuadi-los de urna coisa, mas difícil firmá-los nessa
persuasão. Convém, assim, estar preparado para que, quando não acreditarem
mais, se possa fazê-los crer pela força.
Moisés, Ciro, Teseu e Rômulo não teriam conseguido
fazer observar por longo tempo as suas constituições se tivessem estado desarmados;
como ocorreu nos nossos tempos a Frei Girolamo Savonarola que fracassou nas
suas reformas quando a multidão começou a nele não mais acreditar, e ele não
dispunha de meios para manter firmes aqueles que haviam crido, nem para fazer
com que os descrentes passassem a crer. Por isso, têm grandes dificuldades no
conduzir-se e todos os perigos estão no seu caminho, convindo que os superem
com o valor pessoal; mas superado que os tenham, quando começam a ser venerados, extintos aqueles que tinham inveja de sua
condição, ficam poderosos, seguros, honrados, felizes.
A tão altos exemplos, quero
acrescentar um menor, mas que bem terá alguma relação com aqueles e que julgo
suficiente para todos os outros semelhantes: é Hierão de Siracusa. Este, de
particular, tornou-se príncipe de Siracusa; também ele, da sorte somente
conheceu a ocasião porque, sendo os siracusanos oprimidos, o elegeram para seu
capitão, donde mereceu ser feito príncipe. E foi de tanta virtude, mesmo na
vida privada, que quem escreveu a seu respeito, disse:quod
nihil illi deerat ad regnandum praeter regnum.
Extinguiu a velha milícia, organizou a nova,
abandonou as antigas amizades, conquistou novas; e,
como teve amizades e soldados seus, pode, sobre tais fundamentos, erigir as
obras que desejou: tanto que custou-lhe muita fadiga para conquistar e pouca
para manter.
Aqueles que somente por fortuna se tornam de
privados em príncipes, com pouca fadiga assim se transformam, mas só com muito
esforço assim se mantêm: não encontram nenhuma dificuldade pelo caminho porque
atingem o posto a vôo; mas toda sorte de dificuldades nasce depois que aí
estão. São aqueles aos quais é concedido um Estado, seja por dinheiro, seja por
graça do concedente: como ocorreu a muitos na Grécia,
nas cidades da Jônia e do Helesponto, onde foram feitos príncipes por Dario, a
fim de que as conservassem para sua segurança e glória; como eram feitos,
ainda, aqueles imperadores que, por corrupção dos soldados, de privados
alcançavam o domínio do Império.
Estes estão simplesmente submetidos à vontade e à
fortuna de quem lhes concedeu o Estado, que são duas coisas grandemente
volúveis e instáveis: e não sabem e não podem manter a sua posição. Não sabem,
porque, se não são homens de grande engenho e virtude, não é razoável que,
tendo vivido sempre em ambiente privado, saibam comandar; não podem, porque não
têm forças que lhes possam ser amigas e fiéis. Ainda, os Estados que surgem
rapidamente, como todas as demais coisas da natureza que nascem e crescem
depressa, não podem ter raízes e estruturação perfeitas, de forma que a
primeira adversidade os extingue; salvo se aqueles que, como foi dito, assim
repentinamente se tornaram príncipes, forem de tanta virtude que saibam desde
logo preparar-se para conservar aquilo que a fortuna
lhes pôs no regaço, formando posteriormente as bases que os outros
estabeleceram antes de se tornar príncipes.
Destes dois citados modos de vir a ser príncipe,
por virtude ou por fortuna, quero apontar dois exemplos ocorridos nos dias de
nossa memória: estes são Francisco Sforza e César Bórgia. Francisco, pelos
meios devidos e com grande virtude, de privado tornou-se duque de Milão; e aquilo que com mil esforços tinha conquistado, com pouco trabalho
manteve. Por outro lado, César Bórgia, pelo povo chamado Duque
Valentino, adquiriu o Estado com a fortuna do pai e, juntamente com aquela, o
perdeu; isso não obstante fossem por ele utilizados todos os meios e feito tudo
aquilo que devia ser efetivado por um homem prudente e virtuoso, para lançar
raízes naqueles Estados que as armas e a fortuna de outrem lhe tinham
concedido. Porque, como se disse acima, quem não lança os alicerces primeiro,
com uma grande virtude poderá estabelecê-los depois, ainda que se façam com aborrecimentos
para o construtor e perigo para o edifício. Se, pois, se considerarem todos os
progressos do duque, ver-se-á ter ele estabelecido grandes alicerces para o
futuro poderio, os quais não julgo supérfluo descrever, pois não saberia que
melhores preceitos do que o exemplo de suas ações poderia indicar a um príncipe
novo; e se as suas disposições não lhe aproveitaram, não foi por culpa sua, mas
sim em resultado de uma extraordinária e extrema má sorte.
Tinha Alexandre VI, ao querer tornar grande o duque
seu filho, muitas dificuldades presentes e futuras. Primeiro,
não via meio de poder fazê-lo senhor de algum Estado que não fosse
Estado da Igreja; voltando-se para tomar um destes, sabia que o duque de Milão
e os venezianos não lho permitiriam, porque Faenza e Rimini estavam já sob a
proteção dos venezianos. Via além disto as armas da
Itália, e em especial aquelas de que poderia servir-se, encontrarem-se nas mãos
daqueles que deviam temer a grandeza do Papa; não podia fiar-se, assim,
pertencendo todas elas aos Orsíni e Colonna e seus partidários. Era, pois,
necessário que se perturbasse aquela organização dos Estados italianos e fossem
desarticulados os pertencentes àqueles, para poder assenhorear-se seguramente
de parte dos mesmos. Isso foi-lhe fácil, eis que
encontrou os venezianos que, levados por outras causas, tinham se posto a fazer
com que os franceses retornassem à Itália, ao que não somente não se opôs, como
também tornou mais fácil com a dissolução do primeiro matrimônio do Rei Luís.
Passou, portanto, o rei à Itália com a ajuda dos venezianos e consentimento de
Alexandre: nem bem era chegado a Milão, já o Papa dele
obteve tropas para a conquista da Romanha, a qual tornou-se possível em razão
da reputação do rei. Tendo ocupado a Romanha e batido os partidários dos
Colonna, o duque, querendo manter a conquista e avançar mais à frente, tinha
duas coisas que tal lhe impediam: uma, as suas tropas que não lhe pareciam
fiéis, a outra, a vontade da França; isto é, temia o
duque que lhe falhassem as tropas dos Orsíni, das quais se valera, não só
impedindo-o de conquistar, como também tomando-lhe o conquistado, bem como
receava que o rei não deixasse de fazer-lhe o mesmo. Dos Orsíni teve prova
quando, depois da tomada de Faenza, assaltando Bolonha, os viu irem friamente a
esse assalto; acerca do rei, conheceu sua disposição quando, tomado o ducado de
Urbino, atacou a Toscana; o rei fê-lo desistir dessa campanha. Em conseqüência
de tal, o duque deliberou não mais depender das armas e fortuna dos outros.
Inicialmente, enfraqueceu as facções dos Orsíni e dos Colonna em Roma; para
tanto, atraiu para junto de si todos os adeptos dos mesmos, que fossem gentis-homens,
fazendo-os seus gentis-homens, dando-lhes grandes estipêndios e os honrando.
Segundo suas qualidades, com comandos e governos; de forma que, em poucos
meses, a afeição que mantinham pelas facções foi extinta e voltou-se toda ela
para o duque. Depois, esperou a ocasião de eliminar os Orsíni, dispersos que já
estavam os da casa Colonna, ocasião que lhe surgiu bem e que ele melhor
aproveitou; porque, tendo percebido os Orsíni, tarde porém,
que a grandeza do duque e da Igreja era a sua ruína, organizaram uma
conferência em Magione, no Perugino. Dessa reunião nasceram a
rebelião de Urbino, os tumultos da Romanha e infinitos perigos para o duque, o
qual a todos superou com o auxílio dos franceses.
E, readquirida a reputação, não confiando na França
nem nas outras tropas estrangeiras, para não as ter
fortalecidas, socorreu-se da astúcia. E tão bem soube dissimular seus
sentimentos, que os Orsíni, por intermédio do Senhor Paulo, reconciliaram-se
com ele: para assegurar-se melhor deste intermediário, o duque não deixou de
dispensar-lhe cortesia de toda natureza, dando-lhe dinheiro, roupas e cavalos;
tanto assim que a simplicidade dos Orsíni levou-os a Sinigalia, às mãos do
duque. Eliminados, pois, estes chefes, transformados os partidários dos mesmos
em amigos seus, tinha o duque lançado muito boas bases
para o seu poderio, possuindo toda a Romanha com o ducado de Urbino,
parecendo-lhe, ainda, ter tornado amiga a Romanha e ganho para si todas aquelas
populações que começavam a experimentar o seu bem-estar.
E, porque esta parte é digna de ser conhecida e imitada pelos outros, não desejo omiti-la.
Tomada que foi a Romanha, encontrando-a dirigida por senhores impotentes, os
quais mais depressa haviam espoliado os seus súditos do que os tinham
governado, dando-lhes motivo de desunião ao invés de união, tanto que aquela
província era toda ela cheia de latrocínios, de brigas e de tantas outras
causas de insolência, o duque julgou necessário, para torná-la pacífica e
obediente ao poder real, dar-lhe bom governo. Por isso, aí colocou Ramiro de
Orco, homem cruel e solícito, ao qual deu os mais amplos
poderes. Este, em pouco tempo, tornou-a pacífica e unida, com mui grande
reputação. Depois, entendeu o duque não ser necessária tão excessiva
autoridade, e isso porque não duvidava pudesse vir a
mesma a tornar-se odiosa; instalou um juízo civil no centro da província, com
um presidente excelentíssimo, onde cada cidade tinha o seu advogado. E porque
sabia que os rigorismos passados tinham dado origem a algum ódio, para limpar
os espíritos daquelas populações e conquistá-los completamente, quis mostrar
que, se alguma crueldade havia ocorrido, não nascera dele, mas sim da triste e
cruel natureza do ministro. E, servindo-se da oportunidade, fez colocarem-no
uma manhã, na praça pública de Casena, cortado em dois pedaços, com um pau e
uma faca ensangüentada ao lado. A ferocidade desse espetáculo fez com que a
população ficasse ao mesmo tempo satisfeita e pasmada.
Mas voltemos ao ponto de
partida. Digo que, encontrando-se o duque bastante forte e relativamente
garantido contra os perigos presentes, por ter-se armado a seu modo e ter em
boa parte dissolvido aquelas tropas que, próximas, poderiam molestá-lo,
restava-lhe, querendo prosseguir com as conquistas, o temor ao rei de França, porque
sabia como tal proceder não seria suportado pelo mesmo que, tarde, havia se
apercebido de seu erro. Começou, por isso, a procurar novas amizades e a
tergiversar com a França na incursão que os franceses fizeram no reino de
Nápoles, contra os espanhóis que assediavam Gaeta. A sua intenção era
garantir-se contra eles, o que ter-lhe-ia surtido
pronto efeito se Alexandre tivesse continuado vivo.
Esta foi a sua política quanto às coisas presentes.
Mas, quanto às futuras, ele tinha a temer,
inicialmente, que um novo sucessor ao governo da Igreja não fosse seu amigo e
procurasse tomar-lhe aquilo que Alexandre lhe dera; e pensou proceder por
quatro modos: primeiro, extinguir as famílias daqueles senhores que ele tinha
espoliado, para tolher ao Papa aquela oportunidade; segundo, conquistar todos
os gentis-homens de Roma, como foi dito, para poder com eles manter o Papa
tolhido; terceiro, tornar o Colégio mais seu o quanto possível; quarto,
conquistar tanto poder antes que o pai morresse, que pudesse por si mesmo
resistir a um primeiro impacto. Destas quatro coisas, à morte de Alexandre ele
havia realizado três, estando a quarta quase terminada: porque dos senhores
despojados ele matou quantos pode alcançar e pouquíssimos se salvaram; tinha
conseguido o apoio dos gentis-homens romanos e no Colégio possuía mui grande
parte; e, quanto à nova conquista, resolvera tornar-se senhor da Toscana,
possuía já Perúgia e Piombino e havia tomado a proteção de Pisa.
Como não mais precisasse ter respeito à França (que
o desmerecera por estarem já os franceses despojados do Reino pelos espanhóis,
de forma que cada um deles necessitava comprar a sua amizade), saltaria sobre
Pisa. Depois disso, Lucca e Ciena cederiam prontamente, parte por inveja dos
florentinos, parte por medo; os florentinos não teriam remédio: o que, se
tivesse acontecido (deveria ocorrer no mesmo ano em que Alexandre morreu),
conferir-lhe-ia tantas forças e tanta reputação que ele ter-se-ia mantido por
si mesmo, não mais dependendo da fortuna e das forças dos outros, mas sim de
sua própria potência e virtude. Mas Alexandre morreu cinco anos depois que ele
começara a desembainhar a espada. Deixou-o apenas com o Estado da Romanha
consolidado, com todos os outros no ar, em meio a dois fortíssimos exércitos inimigos e doente de morte.
Havia no duque tanta bravura
indômita e tanta virtude, conhecia tão bem como se conquistam ou se
perdem os homens e talmente sólidos eram os alicerces que assim em tão pouco
tempo havia lançado, que, se não tivesse tido aqueles exércitos sobre si, ou se
estivesse são, teria vencido qualquer dificuldade. E que os seus alicerces
fossem bons, viu-se: por que a Romanha esperou-o mais de um mês; em Roma, ainda
que apenas meio vivo, esteve em segurança e, se bem os Baglioni, Vitelli e
Orsíni viessem a Roma, nada puderam fazer contra ele; se não pode fazer papa
quem queria, pelo menos evitou que o fosse quem ele não queria. Mas, se por
ocasião da morte de Alexandre ele tivesse estado são, tudo lhe teria sido
fácil. Disse-me ele, no dia em que foi eleito Júlio que havia cogitado de tudo
aquilo que podia acontecer morrendo o pai e para tudo encontrara remédio, mas jamais
havia pensado, além da morte de seu pai, que ele mesmo, também, pudesse estar
para morrer.
Relatadas, assim, todas as ações do duque, eu não
saberia repreendê-lo; antes penso que, como o fiz, deva ser proposto à imitação
de todos aqueles que por fortuna e com as armas dos outros subiram ao poder.
Porque, tendo grande ânimo e alta intenção, ele não podia portar-se de outra
for ma; aos seus desígnios, somente se opuseram a brevidade da vida de
Alexandre e a sua enfermidade, Quem, pois, julgar necessário, no seu principado
novo, assegurar-se contra os inimigos, adquirir amigos, vencer ou pela força ou
pela fraude, fazer-se amar e temer pelo povo, seguir e reverenciar pelos
soldados, eliminar aqueles que podem ou têm razões para ofender, ordenar por
novos modos as instituições antigas, ser severo e grato, magnânimo e liberal,
extinguir a milícia infiel, criar uma nova, manter a amizade dos reis e dos
príncipes, de modo que beneficiem de boa vontade ou ofendam com temor, não
poderá encontrar exemplos mais recentes que as ações do duque.
Somente se pode acusá-lo na criação de Júlio
pontífice, onde má foi a eleição; porque, como foi dito, não podendo fazer um
papa de acordo com seu desejo, ele podia impedir fosse feito quem não quisesse;
e não devia jamais consentir no papado daqueles cardeais que tivessem sido por
ele ofendidos, ou que, tornados papas, viessem a temê-lo. Na verdade, os homens
ofendem ou por medo ou por ódio. Os que ele ofendera eram, entre outros, San
Piero ad Vincula, Colonna, San Giorgio, Ascânio; todos os outros, tornados
papas, tinham por que temê-lo, exceto o de Ruão e os espanhóis; estes, por
afinidade e por obrigações, aquele pelo poder e por ter ao seu lado o reino da
França. Conseqüentemente, o duque, antes de tudo, devia criar para um espanhol
e, não podendo, devia consentir que fosse eleito o cardeal de Ruão e não o de
San Piero ad Vincula. E quem acreditar que nas grandes personagens os novos
benefícios façam esquecer as velhas injúrias, engana-se. Errou, pois, o duque
nessa eleição, tornando-se ele mesmo a causa de sua ruína final.
Mas, porque pode-se tornar
príncipe ainda por dois modos que não podem ser atribuídos totalmente à fortuna
ou à virtude, não me parece acertado pô-los de parte, ainda que de um deles se
possa mais amplamente cogitar em falando das repúblicas. Estes são, ou quando
por qualquer meio criminoso e nefário se ascende ao principado, ou quando um
cidadão privado torna-se príncipe de sua pátria pelo favor de seus concidadãos.
E, falando do primeiro modo, apontarei dois exemplos, um antigo e outro atual,
sem entrar, contudo, no mérito desta parte, pois penso seja suficiente, a quem
de tal necessitar, apenas imitá-los.
Agátocles siciliano, não só de privada mas também de ínfima e abjeta condição, tornou-se rei de
Siracusa. Filho de um oleiro, teve sempre, no decorrer
de sua juventude, vida celerada; todavia, acompanhou seus atos delituosos de
tanto vigor de ânimo e de corpo que, tendo ingressado na milícia, em razão de
atos de maldade, chegou a ser pretor de Siracusa. Uma vez investido nesse posto, tendo deliberado tornar-se príncipe e manter pela
violência e sem favor dos outros aquilo que por acordo de todos lhe tinha sido
concedido, depois de acerca desse seu desejo ter estabelecido acordo com
Amilcar cartaginês, que se encontrava em ação com os seus exércitos na Sicília,
reuniu certa manhã o povo e o senado de Siracusa como se tivesse de deliberar
sobre assuntos pertinentes à República e, a um sinal combinado, fez que seus
soldados matassem todos os senadores e os mais ricos da cidade; mortos estes,
ocupou e manteve o principado daquela cidade sem qualquer controvérsia civil.
E, se bem por duas vezes os cartagineses tivessem com ele rompido e
estabelecido assédio, não só pode defender a sua cidade como ainda, tendo
deixado parte de sua gente na defesa contra o cerco, com o restante assaltou a
África e em breve tempo libertou Siracusa do sítio levando os cartagineses a extrema
dificuldade: tiveram de com ele estabelecer acordo e contentar-se com as
possessões da África, deixando a Sicília para Agátocles.
Quem considere, pois, as ações e a vida desse
príncipe, não encontrará coisa, ou pouca achará, que possa atribuir à fortuna:
suas ações resultaram, como acima se disse, não do favor de alguém mas de sua ascensão na milícia, obtida com mil aborrecimentos
e perigos, que lhe permitiu alcançar o principado e, depois, mantê-lo com
tantas decisões corajosas e arriscadas. Não se pode, ainda, chamar virtude o
matar os seus concidadãos, trair os amigos, ser sem fé, sem piedade, sem
religião; tais modos podem fazer conquistar poder, mas não glória. Ademais, se
se considerar a virtude de Agátocles no entrar e no sair dos perigos e a
grandeza de seu ânimo no suportar e superar as adversidades, não se achará por
que deva ser ele julgado inferior a qualquer dos mais excelentes capitães;
contudo, sua exacerbada crueldade e desumanidade, com infinitas perversidades,
não permitem seja ele celebrado entre os homens mais ilustres. Não se pode,
assim, atribuir à fortuna ou à virtude aquilo que sem uma e outra foi por ele
conseguido.
Nos nossos tempos, reinando Alexandre VI,
Oliverotto de Fermo, tendo anos antes ficado órfão de pai,
foi criado por um tio materno de nome Giovanni Fogliani; nos primeiros anos de
sua juventude, foi encaminhado à vida militar sob o comando de Paulo Vitelli, a
fim de que, tomado daquela disciplina, atingisse algum excelente posto da
milícia. Morto Paulo, militou sob Vitellozzo, irmão daquele, e em muito pouco
tempo, por ser engenhoso, de físico e ânimo fortes, tornou-se o primeiro homem
de sua milícia. Mas, parecendo-lhe coisa servil o estar sob as ordens de
outrem, com a ajuda de alguns cidadãos de Fermo, aos quais era mais cara a
servidão que a liberdade de sua pátria, e com o favor de Vitellozzo, pensou
ocupar Fermo. E escreveu a Giovanni Fogliani dizendo que, por ter estado muitos
anos fora de casa, desejava ir visitá-lo e à sua cidade e conhecer o seu
patrimônio; e, como não tinha trabalhado senão para conquistar honras, para que
seus concidadãos vissem como não tinha gasto o tempo
em vão, queria chegar com pompa e acompanhado de cem cavalos de amigos e
servidores seus; pedia-lhe, pois, se servisse ordenar fosse ele recebido pelos
cidadãos de Fermo com todas as honras, o que não somente o dignificaria, mas
também a Fogliani, dado haver sido seu discípulo.
Não deixou Giovanni de despender esforços em favor
de seu sobrinho: tendo feito com que os moradores de Fermo o recebessem com
honrarias, alojou-o em suas casas. Aí, passados alguns dias e pronto para
ordenar secretamente aquilo que era necessário à sua futura perfídia,
Oliverotto promoveu soleníssimo banquete para o qual convidou Giovanni Fogliani
e todos os principais homens de Fermo. Consumadas que foram as iguarias e após
todos os demais entretenimentos usuais em semelhantes ocasiões, Oliverotto, com
habilidade, abordou certos assuntos graves, falando da grandeza do Papa Alexandre,
de seu filho César e dos empreendimentos dos mesmos. Tendo Giovanni e os demais respondido a tais considerações, ele, repentinamente,
ergueu-se dizendo ser aquilo assunto para falar-se em lugar mais secreto,
retirando-se para um cômodo onde Giovanni e todos os outros foram ter com ele.
Nem ainda tinham se assentado, de lugares ocultos saíram soldados que mataram
Giovanni e a todos os demais.
Depois desse homicídio, Oliverotto montou a cavalo,
correu a cidade acompanhado de seus homens e assediou
em seu palácio o supremo magistrado; em conseqüência, por medo, foram obrigados
a obedecê-lo e formar um governo do qual ele se fez príncipe. E, mortos todos
aqueles que, por descontentes, poderiam ofendê-lo, fortaleceu-se com novas
ordens civis e militares de forma que, no período de um ano em que reteve o
principado, não somente esteve forte na cidade de Fermo, como também se tornou
causa de pavor para todas as populações vizinhas. Teria sido difícil a sua
destruição, como difícil foi a de Agátocles, se não tivesse sido enganado por
César Bórgia quando este, em Sinigalia, como já se disse, aprisionou os Orsíni
e os Vitelli. Ai, preso também ele, foi estrangulado juntamente com Vitellozzo,
mestre de suas virtudes e suas perfídias, um ano após haver cometido o
parricídio.
Poderia alguém ficar em dúvida sobre a razão por
que Agátocles e algum outro a ele semelhante, após tantas traições e
crueldades, puderam viver longamente, sem perigo, dentro de sua pátria e,
ainda, defender-se dos inimigos externos sem que os seus concidadãos contra
eles tivessem conspirado, tanto mais notando-se que
muitos outros não conseguiram manter o Estado, mediante a crueldade, nos tempos
pacíficos e, muito menos, nos duvidosos tempos de guerra. Penso que isto
resulte das crueldades serem mal ou bem usadas. Bem usadas pode-se dizer serem
aquelas (se do mal for lícito falar bem) que se fazem instantaneamente pela
necessidade do firmar-se e, depois, nelas não se insiste mas
sim se as transforma no máximo possível de utilidade para os súditos; mal
usadas são aquelas que, mesmo poucas a princípio, com o decorrer do tempo
aumentam ao invés de se extinguirem. Aqueles que observam o primeiro modo de
agir, podem remediar sua situação com apoio de Deus e
dos homens, como ocorreu com Agátocles; aos outros torna-se impossível a
continuidade no poder.
Por isso é de notar-se que, ao ocupar um Estado,
deve o conquistador exercer todas aquelas ofensas que se lhe tornem
necessárias, fazendo-as todas a um tempo só para não
precisar renová-las a cada dia e poder, assim, dar segurança aos homens e
conquistá-los com benefícios, Quem age diversamente, ou por timidez ou por mau
conselho, tem sempre necessidade de conservar a faca na mão, não podendo nunca
confiar em seus súditos, pois que estes nele também não podem ter confiança
diante das novas e contínuas injúrias. Portanto, as ofensas devem ser feitas
todas de uma só vez, a fim de que, pouco degustadas, ofendam menos, ao passo
que os benefícios devem ser feitos aos poucos, para que sejam melhor apreciados. Acima de tudo, um príncipe deve viver com
seus súditos de modo que nenhum acidente, bom ou mau, o faça variar: porque,
surgindo pelos tempos adversos a necessidade, não estarás
em tempo de fazer o mal, e o bem que tu fizeres não te será útil eis que,
julgado forçado, não trará gratidão.
Mas passando a outra parte, quando um cidadão
privado, não por perfídia ou outra intolerável violência, porém com o favor de
seus concidadãos, torna-se príncipe de sua pátria, o que se pode chamar
principado civil (para tal se tornar, não é necessária muita virtude ou muita
fortuna, mas antes uma astúcia afortunada) digo que se ascende a esse
principado ou com o favor do povo ou com aquele dos grandes. Porque em toda
cidade se encontram estas duas tendências diversas e isso resulta do fato de
que o povo não quer ser mandado nem oprimido pelos poderosos e estes desejam
governar e oprimir o povo: é destes dois anseios diversos que nasce nas cidades
um dos três efeitos: ou principado, ou liberdade, ou desordem.
O principado é constituído ou pelo povo ou pelos
grandes, conforme uma ou outra destas partes tenha oportunidade: vendo os
grandes não lhes ser possível resistir ao povo, começam a emprestar prestígio a
um dentre eles e o fazem príncipe para poderem, sob sua sombra, dar expansão ao
seu apetite; o povo, também, vendo não poder resistir aos poderosos, volta a estima a um cidadão e o faz príncipe para estar defendido
com a autoridade do mesmo. O que chega ao principado com a ajuda dos grandes se
mantém com mais dificuldade daquele que ascende ao posto com o apoio do povo,
pois se encontra príncipe com muitos ao redor a lhe parecerem seus iguais e,
por isso, não pode nem governar nem manobrar como entender.
Mas aquele que chega ao principado com o favor
popular, aí se encontra só e ao seu derredor não tem ninguém ou são
pouquíssimos que não estejam preparados para obedecer. Além disso, sem injúria
aos outros, não se pode honestamente satisfazer os grandes, mas sim pode-se fazer bem ao povo, eis que o objetivo deste é mais
honesto daquele dos poderosos, querendo estes oprimir enquanto aquele apenas
quer não ser oprimido. Contra a inimizade do povo um príncipe jamais pode estar
garantido, por serem muitos; dos grandes, porém, pode se assegurar porque são
poucos. O pior que pode um príncipe esperar do povo hostil é ser por ele
abandonado; mas dos poderosos inimigos não só deve temer ser abandonado, como
também deve recear que os mesmos se lhe voltem contra, pois que, havendo neles
mais visão e maior astúcia, contam sempre com tempo para salvar-se e procuram
adquirir prestígio junto àquele que esperam venha a vencer. Ainda, o príncipe
tem de viver, necessariamente, sempre com o mesmo povo, ao passo que pode bem
viver sem aqueles mesmos poderosos, uma vez que pode fazer e desfazer a cada
dia esse seu poderio, dando-lhes ou tirando-lhes reputação, a seu alvedrio.
E, para melhor esclarecer esta parte, digo que os
grandes devem ser considerados em dois grupos principais: ou procedem por forma
a se obrigarem totalmente à tua fortuna, ou não. Os que se obrigam e não são
rapaces, devem ser considerados e amados. Os que não se obrigam devem ser
encarados de dois modos: se fazem isso por pusilanimidade
ou por natural defeito de espírito, deverás servir-te deles, máxime que são
bons conselheiros, porque na prosperidade isso te honrará e na adversidade não
precisarás temê-los. Mas quando eles, ardilosamente, não se obrigam por
ambição, é sinal que pensam mais em si próprios do que em ti: desses deve o
príncipe guardar-se temendo-os como se fossem inimigos
declarados, porque sempre, na adversidade, ajudarão a arruiná-lo.
Deve, pois, alguém que se torne príncipe mediante o
favor do povo, conservá-lo amigo, o que se lhe torna fácil, uma vez que não
pede ele senão não ser oprimido. Mas quem se torne príncipe pelo favor dos
grandes, contra o povo, deve antes de mais nada
procurar ganhar este para si, o que se lhe torna fácil quando assume a proteção
do mesmo. E, por que os homens, quando recebem o bem de quem esperavam somente
o mal, se obrigam mais ao seu benfeitor, torna-se o povo desde logo mais seu
amigo do que se tivesse sido por ele levado ao principado. O príncipe pode
ganhar o povo por muitas maneiras que, por variarem de acordo com as
circunstâncias, delas não se pode estabelecer regra certa, razão pela qual das
mesmas não cogitaremos.
Concluirei apenas que a um príncipe é necessário
ter o povo como amigo, pois, de outro modo, não terá possibilidades na
adversidade. Nabis, príncipe dos espartanos, suportou o assédio de toda a
Grécia e de um exército romano coberto de vitórias, contra eles defendendo sua
pátria e seu Estado; bastou-lhe apenas, sobrevindo o perigo, garantir-se contra
poucos, o que não seria suficiente se tivesse o povo como inimigo. E não surja
alguém para refutar esta minha opinião com aquele provérbio bastante conhecido
de que, quem se apóia no povo firma-se na lama, porque o mesmo é verdadeiro
somente quando um cidadão privado estabelece bases sobre o povo e imagina que o
mesmo vá libertá-lo quando oprimido pelos inimigos ou pelos magistrados; neste
caso seria possível sentir-se freqüentemente enganado, como os Gracos em Roma e
Messer Giorgio Scali em Florença. Mas sendo um príncipe quem se apóie no
povo, que possa mandar e seja um homem de coragem, que não esmoreça nas
adversidades, não careça de armas e mantenha com seu valor e suas determinações
alentado o povo todo, jamais se sentirá por ele enganado e constatará ter
estabelecido bons fundamentos.
Amiúde esses principados periclitam quando estão
para passar da ordem civil para um governo absoluto, porque esses príncipes ou
governam por si mesmos ou por intermédio dos magistrados. Neste último caso a
situação dos mesmos é mais fraca e perigosa, porque dependem completamente da
vontade dos cidadãos prepostos à magistratura, os quais, principalmente nos
tempos adversos, podem tomar-lhes o Estado com grande facilidade, ou
contrariando suas ordens ou não lhes prestando obediência. E o príncipe não
pode, nas ocasiões de perigo, assumir em tempo a autoridade absoluta, porque os
cidadãos e os súditos, acostumados a receber as ordens dos magistrados, não
estão, naquelas conjunturas, para obedecer às suas determinações, havendo
sempre, ainda, nos tempos duvidosos, carência de pessoas nas quais ele possa
confiar. Tal príncipe não pode fundar-se naquilo que observa nas épocas de paz,
quando os cidadãos precisam do Estado, porque então todos correm, todos prometem
e cada um quer morrer por ele enquanto a morte está longe; mas na adversidade,
no momento em que o Estado tem necessidade dos cidadãos, então poucos são
encontrados. E tanto mais é perigosa esta experiência, quanto não se a pode
fazer senão uma vez. Contudo, um príncipe hábil deve pensar na maneira pela
qual possa fazer com que os seus cidadãos sempre e em qualquer circunstância
tenham necessidade do Estado e dele mesmo, e estes, então, sempre lhe serão
fiéis.
Ao examinar as qualidades destes Estados, convém
fazer uma outra consideração, isto é, se um príncipe tem Estado tão grande e
forte que possa, precisando, manter-se por si mesmo, ou então se tem sempre
necessidade da defesa de outrem. Para esclarecer melhor esta parte, digo julgar
como podendo manter-se por si mesmos aqueles que podem, por abundância de
homens e de dinheiro, organizar um exército à altura do perigo a enfrentar e
fazer face a uma batalha contra quem venha assaltá-lo,
assim como julgo necessitados da defesa de outrem os que não podem defrontar o
inimigo em campo aberto, mas são obrigados a refugiar-se atrás dos muros da
cidade, guarnecendo-os. Quanto ao primeiro caso já foi falado e, futuramente,
diremos o que for necessário; relativamente ao segundo, não se pode aduzir algo
mais do que exortar tais príncipes a fortificarem e a proverem sua cidade, não
se preocupando com o território que a contorna. E quem tiver bem fortificada
sua cidade e, acerca dos outros assuntos, se tenha conduzido para com os
súditos como acima foi dito e abaixo se esclarecerá, será sempre assaltado com
grande temor, porque os homens são sempre inimigos dos empreendimentos onde
vejam dificuldades, e não se pode encontrar facilidade para atacar quem tenha
sua cidade forte e não seja odiado pelo povo.
As cidades da Alemanha gozam de grande liberdade,
têm pouco território e obedecem ao imperador quando assim querem, não temendo
nem a este nem a outro poderoso que lhes esteja ao derredor porque são de tal forma fortificadas que todos pensam dever ser
enfadonha e difícil sua expugnação. Na verdade, todas têm fossos e muros adequados,
possuem artilharia suficiente, conservam sempre nos armazéns públicos o necessário
para beber, comer e arder por um ano; além disso, para manter a plebe
alimentada sem prejuízo do povo, têm sempre, em comum, por um ano, meios para
lhe dar trabalho naquelas atividades que sejam o nervo e a vida daquelas
cidades e das indústrias das quais a plebe se alimente. Têm em grande conceito
os exercícios militares, a respeito dos quais têm muitas leis de regulamentação.
Um príncipe, pois, que tenha uma cidade forte e não
se faça odiar, não pode ser atacado e, existindo alguém que o assaltasse,
retirar-se-ia com vergonha, eis que as coisas do mundo são assim tão variadas
que é quase impossível alguém pudesse ficar com os exércitos ociosos por um
ano, a assediá-lo. A quem replicasse que, tendo as suas propriedades fora da
cidade e vendo-as a arder, o povo não terá paciência e o longo assédio e a piedade de si mesmo o farão esquecer o príncipe, eu
responderia que um príncipe poderoso e afoito superará sempre aquelas
dificuldades, ora dando aos súditos esperança de que o mal não será longo, ora
incutindo temor da crueldade do inimigo, ora assegurando-se com destreza
daqueles que lhe pareçam muito temerários. Além disso, é razoável que o inimigo
deva queimar o país apenas chegado, nos tempos em que o ânimo dos homens está
ainda ardente e voluntarioso na defesa; por isso, o príncipe deve ter pouca
dúvida porque, depois de alguns dias, quando os ânimos estão mais frios, os
danos já foram causados, os males já foram sofridos e não há mais remédio;
então, os súditos vêm se unir ainda mais ao semi príncipe,
parecendo-lhes que este lhes deva obrigação, uma vez que suas casas foram
incendiadas e suas propriedades arruinadas para a defesa do mesmo. E a natureza
dos homens é aquela de obrigar-se tanto pelos benefícios que são feitos como
por aqueles que se recebem. Donde, em se considerando tudo bem, não será
difícil a um príncipe prudente conservar firmes, antes e depois do cerco, os ânimos
de seus cidadãos, desde que não faltem víveres nem meios de defesa.
Resta-nos somente, agora, falar dos principados
eclesiásticos, nos quais todas as dificuldades existem antes que se os possuam,
eis que são adquiridos ou pela virtude ou pela fortuna, e sem uma e outra se
conservam, porque são sustentados pelas ordens de há muito estabelecidas na
religião; estas tornam-se tão fortes e de tal natureza
que mantêm os seus príncipes sempre no poder, seja qual for o modo por que
procedam e vivam. Só estes possuem Estados e não os defendem; súditos, e não os
governam; os Estados, por serem indefesos, não lhes são tomados; os súditos,
por não serem governados, não se preocupam, não pensam e nem podem separar-se
deles. Somente estes principados, pois, são seguros e felizes. Mas, sendo eles
dirigidos por razão superior, à qual a mente humana não atinge, deixarei de
falar a seu respeito,mesmo porque, sendo engrandecidos
e mantidos por Deus, seria obra de homem presunçoso e temerário dissertar a seu
respeito. Contudo, se alguém me perguntar donde provém que a Igreja, no poder
temporal, tenha chegado a tanta grandeza, pois que antes de Alexandre os
potentados italianos, e não apenas aqueles que eram ditos
"potentados" mas qualquer barão e senhor, mesmo que sem importância, pouco valor davam ao poder temporal da Igreja, e agora um
rei de França treme, ela pode expulsá-lo da Itália e ainda logra arruinar os
venezianos, apontarei fatos que, a despeito de conhecidos, não me parece
supérfluo reavivar em parte na memória.
Antes que Carlos, rei da França, invadisse a Itália,
esta província encontrava-se sob o domínio do Papa, dos venezianos, do rei de
Nápoles, do duque de Milão e dos florentinos. Estes potentados tinham de se
haver com dois cuidados principais: um, que nenhum estrangeiro entrasse na
Itália com tropas; o outro, que nenhum deles ocupasse mais Estado. Aqueles dos
quais se tinha mais receio eram o Papa e os venezianos. Para conter os
venezianos tornou-se necessária a união de todos os
demais, como ocorreu na defesa de Ferrara; para deter o Papa, serviam-se dos barões
de Roma, eis que. estando divididos em duas facções,
Orsíni e Colonna, sempre existia motivo de discórdia entre eles e, estando de
arma em punho sob os olhos do pontífice, mantinham o pontificado fraco e
inseguro. Se bem surgisse, vez por outra, um Papa animoso, como foi Xisto, nem
a sua fortuna nem o seu saber puderam livrá-lo desses inconvenientes. A
brevidade da vida dos pontífices era a causa dessa situação, porque, nos dez
anos que, em média, vivia um Papa, somente com muita dificuldade podia ele enfraquecer
uma das facções; se, por exemplo, um deles tivesse quase extinguindo os
collonessi surgia um outro, inimigo dos Orsíni, que os fazia
ressurgir sem que tivesse tempo de liquidar os Orsíni. Isto tornava o poder
temporal do Papa pouco considerado na Itália.
Surgiu depois Alexandre VI que, de todos os
pontífices que já existiram, foi o que mostrou o quanto um Papa podia, com o
dinheiro e as tropas, para adquirir maior poder; e fez, com o uso do Duque
Valentino como instrumento e com a oportunidade da invasão dos franceses, todas
aquelas coisas que relatei acima com relação às ações do duque. Se bem seu
intento não fosse o de tornar grande a Igreja mas sim
o duque, não obstante, tudo o que fez reverteu em favor da grandeza da Igreja,
a qual, após a sua morte, extinto o duque, se tornou herdeira de sua obra. Veio
depois o Papa Júlio e encontrou a Igreja grande, possuindo
toda a Romanha, reduzidos à impotência os barões de Roma e, pelas perseguições
de Alexandre, anuladas aquelas facções; encontrou, ainda, o caminho aberto para
acumular dinheiro, o que jamais havia sido feito antes de Alexandre.
Júlio não só seguiu tais práticas, como as ampliou;
pensou em conquistar Bolonha, extinguir os venezianos e expulsar os franceses
da Itália: todos esses empreendimentos lhe saíram bem, e com tanto maior louvor
quanto realizou tudo isso para engrandecer a Igreja e não para favorecer algum
cidadão particular. Conservou, ainda, os partidos dos Orsíni e dos Colonna nas
mesmas condições em que os encontrara e, se bem entre eles houvesse algum chefe
capaz de fazer mudar a situação, duas coisas os mantiveram quietos: uma, a grandeza
da Igreja, que os atemorizava; a outra, não terem eles cardeais, os quais são
os causadores dos tumultos entre as facções. Nem em tempo algum ficarão quietas
essas partes, desde que possuam cardeais, pois estes sustentam os partidos
dentro e fora de Roma e os barões são forçados a defendê-los; assim, da ambição
dos prelados, nascem as discórdias e os tumultos entre os barões. Sua
Santidade, o Papa Leão, encontrou o pontificado potentíssimo e, espera-se, se aqueles
que referimos o fizeram grande pelas armas, este o fará ainda maior e mais
venerado pela bondade e suas outras infinitas virtudes.
Tendo falado detalhadamente de todas as espécies de
principados, dos quais já no início me propus comentar, e consideradas, em
alguns pontos, as causas do bem-estar e do mal-estar dos mesmos, mostrados que
foram os modos pelos quais muitos procuraram adquiri-los e conservá-los,
resta-me agora falar de forma genérica dos meios ofensivos e defensivos que em
cada um dos citados principados possam ocorrer, Dissemos acima como é necessário
a um príncipe ter bons fundamentos; do contrário, necessariamente, cairá em
ruína. Os principais fundamentos que os Estados têm, tanto os novos como os velhos
ou os mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não pode haver boas
leis onde não existam boas armas e onde existam boas armas convém que haja boas
leis, deixarei de falar das leis e me reportarei apenas às armas.
Digo, pois, que as armas com as quais um príncipe
defende o seu Estado, ou são suas próprias ou são mercenárias, ou auxiliares ou
mistas. As mercenárias e as auxiliares são inúteis e perigosas e, se alguém tem
o seu Estado apoiado nas tropas mercenárias, jamais estará firme e seguro,
porque elas são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis; galhardas
entre os amigos, vis entre os inimigos; não têm temor a Deus e não têm fé nos
homens, e tanto se adia a ruína, quanto se transfere o assalto; na paz se é
espoliado por elas, na guerra, pelos inimigos. A razão disto é que elas não têm
outro amor nem outra razão que as mantenha em campo, a não ser um pouco de
soldo, o qual não é suficiente para fazer com que queiram morrer por ti. Querem
muito ser teus soldados enquanto não estás em guerra,
mas, quando esta surge, querem fugir ou ir embora.
Para persuadir de tais coisas não me é necessária
muita fadiga, eis que a atual ruína da Itália não foi causada por outro fator
senão o de ter, por espaço de muitos anos, repousado sobre as armas mercenárias.
Elas já fizeram algo em favor de alguns e pareciam galhardas nas lutas entre
si; mas, quando surgiu o estrangeiro, mostraram-lhe o
que eram. Por isso foi possível a Carlos, rei de França, tomar a Itália com o
giz; e quem disse que a causa disso foram os nossos pecados, dizia a verdade,
se bem que esses pecados não fossem aqueles que ele julgava, mas sim esses que
eu narrei, e como eram pecados de príncipes, estes sofreram o castigo.
Quero demonstrar melhor a infeliz qualidade destas
tropas. Os capitães mercenários ou são homens excelentes, ou não: se o forem,
não podes confiar, porque sempre aspirarão à própria grandeza, abatendo a ti
que és o seu patrão, ou oprimindo os outros contra a tua vontade; mas se não
forem grandes chefes, certamente te levarão à ruína. E, se for respondido que
qualquer um que detenha as forças nas mãos fará isso, mercenário ou não,
responderei dizendo como as armas devem ser usadas por um príncipe ou por uma
República. O príncipe deve ir pessoalmente com as tropas e exercer as
atribuições do capitão: a República deve mandar seus cidadãos e, quando enviar
um que não se revele valente, deve substituí-lo, quando animoso deve detê-lo
com as leis para que não avance além do limite. Por experiência se vêem
príncipes sós e repúblicas armadas fazerem grandes progressos, enquanto se vêem
tropas mercenárias não causarem mais do que danos. Ainda, uma República armada
de tropas próprias se submete ao domínio de um seu cidadão com muito maior
dificuldade do que aquela que esteja protegida por tropas mercenárias ou
auxiliares.
Roma e Esparta foram durante muitos séculos armadas
e livres, Os suíços são armadíssimos e libérrimos, Das armas mercenárias antigas,
podemos citar como exemplo os cartagineses, os quais quase foram oprimidos por
seus soldados mercenários, ao fim da primeira guerra com os romanos, a despeito
de terem por chefes os próprios cidadãos de Cartago. Felipe da Macedônia foi
pelos tebanos feito capitão de sua gente, depois da morte de Epaminondas, e
após a vitória lhes tolheu a liberdade, Os milaneses, morto o Duque Felipe,
assalariaram Francisco Sforza para combater os venezianos e o mesmo, vencidos
os inimigos em Caravaggio, a estes se uniu para oprimir os milaneses, seus
patrões. Sforza, seu pai, estando a serviço da Rainha Joana de Nápoles,
deixou-a repentinamente desarmada; por isso ela, para não perder o reino, foi
obrigada a lançar-se aos braços do Rei de Aragão.
E se venezianos e florentinos, ao contrário,
tiveram aumentado o seu domínio com essas tropas, e os seus capitães se fizeram
príncipes mas os defenderam, esclareço que os
florentinos, neste caso, foram favorecidos pela sorte, porque dos capitães de
valor, aos quais podiam temer, alguns não venceram ou tiveram de lutar contra
antagonistas, outros voltaram sua ambição para paragens diversas. Quem não
venceu foi Giovanni Aucut, por isso mesmo não se podendo conhecer de sua
fidelidade, mas todos estarão concordes que, tivesse vencido, os florentinos
estariam à sua mercê. Sforza sempre teve os Braccio contra si, vigiando-se uns
aos outros. Francisco voltou sua ambição para a Lombardia, Braccio contra a
Igreja e o reino de Nápoles. Mas, vejamos o que ocorreu há pouco tempo. Os
florentinos fizeram Paulo Vitelli seu capitão, homem de muita prudência e que,
de vida privada, havia alcançado mui grande reputação. Se ele conquistasse
Pisa, não haveria quem negasse convir aos florentinos estar sob suas ordens,
mesmo porque, se ele tivesse ficado como soldado de seus inimigos, não teriam
remédio e, tendo-o ao seu lado, deveriam obedecer-lhe.
Os venezianos, se se considerar os seus progressos,
ver-se-á terem operado segura e gloriosamente enquanto fizeram a guerra sozinhos (o que foi antes de voltarem suas vistas
para a terra) sendo que, com o apoio dos gentis-homens e com a plebe armada,
operaram mui galhardamente; mas, como eles começaram a combater em terra, abandonaram
essa prudência e seguiram os costumes de guerra da Itália. No princípio de sua
expansão terrestre, por não possuírem muito Estado e por usufruírem alta
reputação, não precisavam temer muito seus capitães;
mas, quando ampliaram suas conquistas, o que ocorreu sob o Carmignola, tiveram
a prova desse erro. Por tanto, tendo visto seu valor quando sob seu comando
bateram o duque de Milão e sentindo, de outra parte, quanto ele esfriara no conduzir a guerra, julgaram não mais ser possível com ele
vencer dada a sua má vontade; e não podendo licenciá-lo para não perder aquilo
que tinham adquirido, para se garantirem viram-se na contingência de matá-lo, Tiveram
depois por seus capitães Bartolomeu e Bergamo, Roberto de São Severino, Conde
de Pitigliano e outros parecidos, com os quais deviam temer as derrotas e não
suas conquistas, como ocorreu depois em Vailá, onde, num dia, perderam tudo
aquilo que, em oitocentos anos, com tanta fadiga, tinham conquistado. Na
verdade, destas tropas resultam apenas lentas, tardias e fracas conquistas, mas
rápidas e miraculosas perdas. E, como apresentei estes exemplos da Itália que
tem sido por muitos anos dominada por armas mercenárias, quero analisar essas
tropas por forma mais genérica, a fim de que, vendo a origem e o
desenvolvimento das mesmas, se possa melhor corrigir o erro de seu emprego.
Deveis, pois, saber como, logo que nestes últimos
anos o império começou a ser repelido da Itália e o Papa passou a ter reputação
no poder temporal, a Itália dividiu-se em vários Estados. Na verdade, muitas
das maiores cidades tomaram das armas contra seus nobres, os quais, antes
favorecidos pelo imperador, as mantinham oprimidas, e a Igreja, para obter
reputação em seu poder temporal, as favorecia em tal; de muitas outras, os seus
cidadãos se tornaram príncipes.
Daí resultar que, tendo a Itália quase toda,
chegado a cair nas mãos da Igreja e de algumas repúblicas, não estando aqueles
padres e aqueles outros cidadãos habituados ao uso das armas, começaram a
aliciar mercenários estrangeiros. O primeiro que deu fama a essa milícia foi
Alberico da Conio, natural da Romanha, sendo que de sua escola de armas vieram,
dentre outros, Braccio e Sforza, nos seus dias os árbitros da Itália. Depois
destes vieram todos os outros que até nossos tempos têm chefiado essas tropas,
e o fim do valor das mesmas foi que a Itália viu-se percorrida por Carlos,
saqueada por Luís, violentada por Fernando e desonrada pelos suíços.
A ordem que eles observaram inicialmente foi, para dar reputação a si próprios, tirar o conceito da infantaria, Fizeram isso porque, sendo eles sem Estado e vivendo da indústria das armas, poucos infantes não lhes dariam fama e, sendo muitos, não poderiam alimentá-los; assim, limitaram-se à cavalaria onde, com número suportável, as tropas podiam ser nutridas e eles honrados. E, afinal, a situação tornou-se tal que, em um exército de vinte mil soldados, não se encontravam dois mil infantes. Tinham, além disso, usado todos os meios para afastar de si e de seus soldados o cansaço e o medo, não se matando nos combates, fazendo-se prisioneiros uns aos outros e libertando-se depois sem resgate. Não atacavam as